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Disponíveis para o próximo nível?

Na década de 60, quando a economia se abriu ao exterior, Portugal dispunha de uma base competitiva muito pobre. Apesar das paupérrimas condições originais, do muito baixo nível de escolaridade da população, da falta gritante de infra-estruturas, da exígua disponibilidade de capital e do reduzido rendimento familiar, o PIB per capita cresceu 1,27% entre 1960 e 2007, apenas superado pela Irlanda com 1,34%.
No período, a alfabetização passou de cerca de 50% para próximo de 90%, a produtividade total dos factores (capital e trabalho) expandiu-se 200% contra 117% na EU-12, o sector exportador reinventou-se, há empresas nacionais reconhecidas internacionalmente pela sua excelência. Todavia, desde 2000, o PIB per capita contraiu-se (-0.18%).Precisamos de ser mais produtivos e inovadores, mas:– os custos unitários laborais cresceram 9x desde os anos 60, comparando com aumentos de 7,9x na Irlanda ou 6x na Grécia, mas a produtividade laboral registou um acréscimo de 5,2x em Portugal, 5x na Irlanda ou 5,4x na Grécia. (Espanha estará pior com o aumento dos custos de 12x e da produtividade de 4x);– dos empresários portugueses na indústria com idade inferior a 30 anos, 13% tem formação superior que compara com a média europeia de 7,5%, mas na classe com idade superior a 40 anos, a formação universitária abrangia 12% face a 15% na Europa. Nos serviços, as diferenças são mais substantivas, 54% dos empresários com mais de 40 anos têm apenas formação básica enquanto que na Europa são cerca de 25%.– a taxa de natalidade de empresas na indústria em Portugal é de 5,8%, que compara com 6% em Espanha, 4,6% na Finlândia e 5% na Itália, mas a taxa de natalidade de empresas no sector de ICT (tecnologias de informação e comunicação) é em Portugal de 5,8% que compara com 13% em Espanha, 9% na Finlândia e 10% em Itália.– a taxa de abandono escolar em Portugal é de 40% face a 30% em Espanha ou 18% na UEM. Todavia, o rendimento médio mensal de trabalhadores não qualificados era, em 2006, cerca de 461 euros, enquanto técnicos profissionais de nível intermédio auferiam 996 euros;– a taxa de fertilidade de 1,37 é das mais baixas da Europa.Apesar das críticas, em momentos de crise, voltamo-nos para o Estado em busca de soluções, que têm de ser descobertas, sobretudo, na esfera privada. Pretendemos crescer, mas queremos ser mais produtivos, suportando os custos associados, em prol de melhores dias? O dinamismo recente da economia alemã, manifesto num crescimento trimestral no 1T08 de 2,2% que compara com 0,9% em Portugal, assenta em progressos registados na competitividade, os quais se basearam em reformas laborais, conferindo maior flexibilidade ao mercado de trabalho, mas sobretudo reestruturação das empresas e contenção salarial (com uma base inicial elevada, mesmo para os padrões europeus). Entre 1996 e 2006, os custos laborais na Alemanha cresceram 27%, que comparam com 63% na Irlanda, 70% na Grécia, 54% em Espanha ou 52% em Portugal. Parte do sucesso irlandês baseou-se num contrato social envolvendo todos os agentes económicos, que passou por redução de impostos, atracção de investimento estrangeiro e contenção salarial (num país onde os rendimentos, ao tempo, eram baixos).Estamos dispostos a alterar o padrão comportamental, a sair da zona de conforto, assumindo custos e riscos, a falhar? Em vez de antecipar consumos endividando-nos mais, queremos adiá-los, investindo em formação, arriscando em inovação e na criação de empresas, tendo filhos? Vamos continuar a culpar o Estado por nós? Podemos pensar que não vale a pena: estamos bem. Porém, as gerações futuras vão necessariamente pagar o custo associado ao nível de consumo superior às capacidades de produção de riqueza.
Cristina Casalinho