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POTENCIALIDADES DE REUTILIZAÇÃO DE ÁGUAS RESIDUAIS PARA REGA DE CAMPOS DE GOLFE NA REGIÃO DO ALGARVE

Potencialidades de reutilização de águas residuais para rega de campos de golfe na região do algarve
Martins, António 1; FREIRE, Joaquim 2; SOUSA, João de 3; RIBEIRO, Artur 4
1 m.martins@aguasdoalgarve.pt; 2 j.freire@aguasdoalgarve.pt; 3 j.sousa@aguasdoalgarve.pt;
4 a.ribeiro@aguasdoalgarve.pt.
Águas do Algarve, S.A., Rua do Repouso 10, 8000-302 Faro; geral@aguasdoalgarve.pt; tel. +351.289899070, fax: +351.289899079.

Resumo

A Águas do Algarve, S.A. (AdA), entidade gestora dos Sistemas Multimunicipais de Abastecimento de Água e de Saneamento de Águas Residuais da Região do Algarve, decidiu efectuar um Estudo para avaliação das potencialidades de reutilização de águas residuais na região, nomeadamente a nível da oferta de águas residuais, procura pelos campos de golfe e respectivo cruzamento de informação. Neste artigo descreve-se a metodologia adoptada e apresenta-se os principais resultados obtidos até ao momento. Como seguimento deste Estudo serão elaborados, entre outros, projectos para remodelação e construção de alguns sistemas de saneamento, que permitirão efectuar uma análise económico-financeira para avaliar rigorosamente os custos de investimento e de exploração associados. Serão então calculadas as tarifas que asseguram a recuperação/rentabilização do respectivo investimento. A AdA contribuirá assim para uma melhor gestão do ciclo urbano da água, e, consequentemente, para a sustentabilidade da utilização dos recursos hídricos da região.

Palavras chave: Reutilização, águas residuais, rega, campos de golfe, sustentabilidade.


1. Enquadramento do estudo

A indústria do turismo é um dos sectores económicos fundamentais para o desenvolvimento do país. Os empreendimentos turísticos com campos de golfe, constituem um motor basilar desta indústria pois estão associados ao chamado turismo de qualidade, o qual contribui ainda com efeitos colaterais e multiplicadores para a economia local e, consequentemente, nacional. A região do Algarve é uma das regiões a nível nacional que mais tem contribuído para os proveitos totais da actividade turística nacional. Esta região dispõe de mais de 40% dos campos de golfe do país o que por si só realça a importância desta modalidade, tanto em termos regionais como nacionais. Acresce ainda que o Algarve figura entre os locais considerados pelos operadores turísticos como um dos melhores destinos turísticos de golfe a nível mundial, tendo mesmo sido aclamado no passado mês de Dezembro pela Association of Golf Tour como o melhor destino de golfe do mundo. Embora o país, e a região do Algarve em particular, disponha de condições únicas para o desenvolvimento e prática desta modalidade, existe o receio de que a mesma possa conduzir a médio prazo a desequilíbrios hídricos em determinadas zonas, devido aos elevados consumos a que geralmente é associada e às limitações dos recursos hídricos disponíveis para abastecimento. A massificação de campos de golfe no Algarve pode provocar desequilíbrios a vários níveis, apontando estudos recentes para um limite máximo de 41 campos de 18 buracos de modo a manter o desenvolvimento sustentável da actividade, i.e., compatibilização das vertentes empresarial, sócio-económica, e ambiental (Martins e Correia, 2004).

As águas residuais podem ser tratadas a níveis de qualidade que lhes permitam que sejam utilizadas como uma matéria-prima, nomeadamente na rega, sendo esta medida geralmente competitiva do ponto de vista técnico-económico, além de ser ambientalmente recomendável (Marecos do Monte, 1994; Asano, 1998; Lazarova e Bahri, 2005). Parece assim ser natural que os campos de golfe caminhem no sentido da reutilização de águas residuais, começando a surgir em Portugal cada vez mais estudos e projectos desta índole (Marecos do Monte, 2001; ADA e DHVFBO, 2003). Os próprios nutrientes presentes nas águas residuais acabam por ser aproveitados com a reutilização, reduzindo a quantidade de fertilizantes químicos a utilizar. Também a legislação indica que as águas residuais tratadas devem ser, sempre que possível ou adequado, reutilizadas (Decreto Lei n.º 152/97). As águas de rega são objecto de enquadramento no Decreto Lei n.º 236/98 (capítulo V), estando as normas de qualidade definidas no mesmo diploma (artigo 60.º e anexos XVI e XVII). Adicionalmente o Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água indica a necessidade de se reutilizar a água residual tratada, nomeadamente na rega de campos desportivos, campos de golfe e outros espaços verdes de recreio (MAOT, 2001). Embora sem cariz legal, foi recentemente publicada a Norma Portuguesa NP 4434 que define uma série de critérios e procedimentos a adoptar na rega e de monitorização da zona potencialmente afectada por essa rega, bem como requisitos de qualidade das águas residuais urbanas tratadas destinadas à rega. Por outro lado, a região Algarvia é uma das regiões a nível nacional onde a reutilização de água residual tem maior tendência de desenvolvimento, objectivo aliás que está consagrado no documento de trabalho PEAASAR 2007-2013 (MAOTDR, 2006).

A Águas do Algarve, S.A. (AdA), empresa responsável pela exploração dos Sistemas Multimunicipais de Abastecimento de Água e de Saneamento do Algarve (Figura 1), é, obviamente, parte interessada nesta problemática. Períodos de seca recentes levaram mesmo esta empresa à tomada de medidas extraordinárias de modo a precaver eventuais cortes no abastecimento, acabando por aplicar o principio da precaução, actualmente consignado na Lei da Água (Lei n.º 58/2005). A reutilização das águas residuais tratadas seria assim uma medida económica e ambientalmente muito positiva, que contribuiria para a optimização da gestão dos recursos hídricos da região. A nível do tratamento a AdA é responsável pela construção e exploração dos sistemas de saneamento de águas residuais de forma a produzir água residual tratada com qualidade adequada para descarga no meio receptor e para rega. Se a água for reutilizada para rega de campos de golfe ou na agricultura, a AdA poderá fazer a entrega da água residual tratada ao utilizador final, num ponto a acordar, sendo responsável pela construção da rede e transporte até este ponto (IRAR, 2006). Através da reutilização a AdA poderá dar uma contribuição adicional a nível da gestão do ciclo urbano da água, encaixando-se perfeitamente nas áreas de actuação desta empresa.

Em 2003 foi celebrado um Protocolo visando a reutilização de águas residuais na rega de campos de golfe em Vilamoura, o qual resultou da Declaração de Impacte Ambiental (DIA) relativa ao EIA do 5º campo de golfe de Vilamoura. Nos anos mais recentes tem-se vindo a intensificar o número de solicitações por parte de empreendimentos com campos de golfe em actividade ou em fase de licenciamento. No caso de campos de golfe existentes, a procura deve-se ao reduzido volume de água disponível para rega e, ou à sua elevada mineralização, o que condiciona a utilização desta água para o fim em vista. No caso de novos empreendimentos tem sido norma a exigência em fase de Declaração de Impacte Ambiental o recurso à reutilização de águas residuais tratadas para rega de campos de golfe.

A AdA decidiu assim efectuar um Estudo – Estudo das potencialidades de reutilização de águas residuais na região do Algarve, o qual foi adjudicado à firma Hidroprojecto, Engenharia e Gestão, S.A., com participação de técnicos da Universidade do Algarve, para avaliação das potencialidades de reutilização de águas residuais na região, nomeadamente a nível da oferta (Fase 1), procura (Fase 2) e que cruzasse a informação obtida (Fase 3) (AdA e Hidroprojecto, 2005, 2006; AdA et al., 2005), tendo por base os seguintes objectivos principais:
- identificar e caracterizar os potenciais interessados na reutilização das águas residuais das ETAR da Região do Algarve, tendo em conta a realidade actual e as perspectivas ao longo da duração da concessão, sendo dado especial atenção à reutilização na rega de campos de golfe;
- identificar as limitações na reutilização de águas residuais, aos vários níveis, que possam existir (capacidade das ETAR e caudais afluentes, tratamento instalado, distâncias a que se encontram os locais de reutilização, níveis de qualidade que os efluentes deverão atingir para reutilização, etc.), partindo de uma base de catorze ETAR identificadas como sendo as mais adequadas;
- analisar as possibilidades das ETAR, existentes e previstas, em darem resposta às solicitações que venham a ser identificadas neste âmbito, incluindo uma estimativa dos investimentos necessários efectuar, ao nível dos sistemas de tratamento e transporte (interceptores e estações elevatórias);
- Identificar os casos em que a reutilização de águas residuais possa ser vantajosa, numa perspectiva de gestão adequada dos recursos hídricos disponíveis, quer superficiais, quer subterrâneos, para abastecimento público.

2. Metodologia

O Estudo foi desenvolvido de acordo com as fases indicadas, descrevendo-se no Quadro 1 os principais conteúdos de cada uma das fases. Seleccionou-se um conjunto de 14 ETAR com base ou na sua dimensão ou na sua localização estratégica relativamente aos campos de golfe (Quadro 2). A abordagem efectuada a nível da caracterização quantitativa da oferta de águas residuais compreendeu o período entre 2005 (ano zero), 2015 (ano intermédio) e 2030 (ano horizonte).

Figura 1: Sistema Multimunicipal de Saneamento do Algarve.

























A segunda fase, executada pela Universidade do Algarve, através da coordenação do Prof. José Paulo Monteiro, baseou-se num inquérito exaustivo sobre os campos de golfe, tendo-se procurado recolher a informação essencial, no próprio local, nomeadamente, número de buracos área do campo, tipos de relva e consumos de água por sector, tipos de sistema e controlo de rega e origem de água e fonte de água alternativa (AdA et al., 2005). As dotações de rega de cada golfe foram quantificadas de acordo com a metodologia indicada em Costa (2003). Procedeu-se igualmente ao levantamento do estado das pretensões dos campos de golfe, nomeadamente dos projectos viabilizados ou em vias de o ser. Na terceira fase do estudo foram considerados os campos de golfe existentes e os viabilizados, tendo-se admitido acréscimos de 10% do caudal necessário por Golfe para rega de espaços verdes.

3. Principais resultados

3.1 Caracterização da Oferta
As ETAR seleccionadas servirão uma população de cerca de 1 milhão de hab. equiv. na época alta do ano 2030 (Quadro 2), correspondente a cerca de 283.000 m3/d (Quadro 4). Nos próximos anos as ETAR tratarão cerca de 155.000 m3/d, servindo uma população próxima de 548.000 hab. equiv.. Todas as ETAR seleccionadas têm, instalado ou projectado, um processo de tratamento de, no mínimo, nível secundário, sendo que, a maioria, é do tipo intensivo, nomeadamente através do processo de lamas activadas, o que promove uma maior flexibilidade, em termos de exploração.

Quadro 1: Principais componentes de cada uma das fases do Estudo.

Fase do estudo
Informação relevante
1 – Caracterização da Oferta
1. identificação das potencialidades de reutilização
2. caracterização das catorze ETAR consideradas
3. enquadramento legal desta actividade, com uma abordagem à legislação nacional e internacional, bem como recomendações institucionais e normas de qualidade específicas de alguns campos de golfe
4. identificação das limitações à reutilização das águas residuais
5. propostas de intervenção para optimização dos processos de tratamento das ETAR consideradas
6. análise de viabilidade das operações de armazenamento
7. controlo da qualidade do efluente para rega
2 – Caracterização da Procura
1. estimativa dos consumos de água para rega dos campos de golfe e dos espaços verdes mais relevantes existentes na área abrangida pelo Estudo, bem como a distribuição mensal desses consumos
2. caracterização das origens de água utilizadas na rega dos campos de golfe,
3. tratamento cartográfico dos dados relativos aos campos de golfe, existentes e previstos
4. abordagem sobre o impacte hidrogeológico da reutilização de águas residuais tratadas na rega dos campos de golfe
3 – Cruzamento entre a oferta e a procura
1. cruzamento entre a oferta (disponibilidades) e a procura (necessidades) de água residual
2. análise sobre o armazenamento de água
3. requisitos da qualidade associadas ao uso de água residual tratada na rega
4. considerações sobre a gestão da rega de um campo de golfe com água residual tratada
5. soluções de tratamento e transporte preconizadas
6. avaliação técnico-económica relativamente aos custos de tratamento adicional e ao transporte da água residual tratada
7. análise dos resultados do tratamento adicional e transporte da água residual
8. conclusões.

No que se refere às exigências de qualidade do efluente tratado apenas em dois dos sistemas seleccionados - Quinta do Lago e Albufeira Poente - é necessário remover nutrientes (azoto e fósforo) para descarga do efluente tratado no meio receptor, sendo esta exigência válida apenas para uma fracção de caudal no sistema de Albufeira Poente. Muitas das ETAR instaladas têm, no entanto, ou terão, capacidade de remover igualmente os nutrientes, nomeadamente o azoto, por serem sistemas de lamas activadas de baixa carga e, ou terem previsto selectores anaeróbios. Acresce ainda que, caso seja necessário, é geralmente praticável a implementação de sistemas de remoção físico-química de fósforo. Na maior parte dos sistemas é exigido uma concentração máxima de coliformes fecais no efluente tratado de 2.000 NMP/100 ml, sendo a desinfecção, prevista ou em funcionamento, realizada fundamentalmente por sistemas de desinfecção por lâmpadas ultravioleta.

Quadro 2: Lista de ETAR seleccionadas e principais características.




















A AdA iniciou a caracterização analítica da água residual em termos dos parâmetros que permitem avaliar o seu grau de mineralização, isto é, condutividade, sólidos dissolvidos totais e cloretos. Exceptuando alguns sistemas que apresentam intrusões salinas ao longo do sistema interceptor [por exemplo, Companheira-Portimão e Boavista (EE do Carvoeiro), problema este que está a ser resolvido ou o será brevemente] os primeiros resultados apontam para que as águas residuais caracterizadas sejam classificadas como ligeiramente salinas (Quadro 3). Uma água com boa qualidade para rega deve conter até 800 mg/l de SDT. Concentrações de SDT superiores a 2.000 mg/l afectam a relva, podendo mesmo destruí-la. Muitas espécies de relva toleram concentrações de SDT até este limite máximo mas os solos terão que ter uma boa permeabilidade e drenagem (Harivandi, 2004). Conclui-se assim que, salvo raras excepções, as águas residuais possuem na sua generalidade características de salinidade adequadas para poderem ser utilizadas na rega da relva de campos de golfe. Refira-se ainda que a sua qualidade em termos salinos é significativamente superior à da água subterrânea que é utilizada actualmente para rega de alguns campos de golfe.

3.2 Caracterização da Procura
À data de realização desta fase do Estudo, Outubro de 2005, contabilizou-se a existência de 31 campos de golfe em actividade, totalizando 513 buracos, localizados fundamentalmente, tal como as ETAR de maiores dimensões, junto à faixa litoral (Figura 2). Os campos de golfe existentes, bem como os que estão em construção e as pretensões, localizam-se predominantemente no Barlavento e na zona central do Algarve, havendo apenas seis no Sotavento. O consumo anual médio por campo de golfe de 18 buracos (aproximadamente 28,5 campos de golfe) é de 0,3 hm3, o que perfaz um consumo anual total de cerca de 8,7 hm3. Considerando uma capitação de água de 200 l∙hab-1∙d-1 este consumo é equivalente a cerca de 120.000 hab, o que representa aproximadamente 30% da população residente. O caudal do mês de ponta necessário para rega de um campo de golfe de 18 buracos varia entre 900 e 2.500 m3/d, sendo o valor médio de 1.650 m3/d (cerca de 0,6 hm3/ano).

Quadro 3: Valores médios de salinidade e cloretos da água residual de alguns sistemas 1,2 e valores típicos indicados na bibliografia.














Figura 2. Distribuição geográfica das ETAR abrangidas pelo estudo e empreendimentos de golfe no Algarve (ETAR; Campos de golfe em funcionamento, aprovados ou em construção e pretensões).


Na Figura 3 apresenta-se a distribuição da origem da água para rega em função do número de campos e do consumo anual. A origem dominante é subterrânea, sendo utilizada por 19 campos de golfe, com um consumo anual de cerca de 6 hm3. Os perímetros de rega contribuem com cerca de 2,2 hm3/ano, sendo cerca de 1,2 hm3 destinados a 5 campos de golfe do Sotavento e os restantes a 6 campos no Barlavento. Verifica-se que apenas 1 campo (18 buracos) utiliza integralmente água residual tratada, cerca de 0,2 hm3/ano, valor este um pouco baixo, sendo esta origem utilizada conjuntamente com águas subterrâneas em 7 campos (135 buracos; 2,5 hm3/ano). As restantes origens de água são superficiais ou subterrâneas: 10 campos (153 buracos; 3,2 hm3/ano) utilizam águas subterrâneas, 9 campos (135 buracos; 1,8 hm3/ano) recebem água para rega das Associações de Regantes do Alvor e do Sotavento, 2 campos (36 buracos; 0,4 hm3/ano) utilizam água subterrânea e água proveniente da Associação de Regantes de Silves, 1 campo (18 buracos; 0,2 hm3/ano) utiliza água proveniente da Associação de Regantes do Sotavento e de uma barragem particular e 1 campo (18 buracos; 0,35 hm3/ano) utiliza água de uma barragem própria. Registe-se que 12 campos de golfe em actividade, correspondentes a um consumo anual de cerca de 3,3 hm3, mostraram-se receptivos à utilização de águas residuais tratadas para rega. Os restantes campos de golfe colocaram algumas reservas à utilização de efluentes urbanos embora não excluíssem totalmente essa hipótese.

Relativamente ao sistema de irrigação utilizado é na quase generalidade por aspersão, sendo os jardins, sebes e árvores de 10 campos regados por sistemas de gota a gota. Os sistemas de rega são quase na íntegra controlados por computador, utilizando adicionalmente 8 campos dados metereológicos medidos in situ e, ou informação satélite para controlo e optimização do sistema de rega.

No que se refere à qualidade estipulada para a água residual a reutilizar, utilizou-se como referência o Anexo XVI do D.L nº 236/98, de 1 de Agosto, cujos valores foram igualmente adoptados pela Norma Portuguesa 4434 2005, apresentando alguns campos de golfe critérios de qualidade pontualmente mais restritivos.

Figura 3: Distribuição da origem da água para rega em função do número de campos de golfe (a) e do consumo anual (hm3) (b) no ano de 2007.















3.3 Cruzamento entre a Oferta e a Procura
A generalidade das ETAR abrangidas disponibilizam caudal suficiente para fazer face às necessidades de rega dos campos de golfe existentes, havendo apenas a registar uma ligeira insuficiência de caudal na ETAR de Vale do Lobo (Quadro 4). Situação praticamente idêntica verifica-se com as pretensões viabilizadas ou com boa probabilidade de o serem, pese embora as mesmas representarem mais 19 campos de golfe (341 buracos). Dos campos de golfe existentes apenas um – Golfe Colina Verde – Maragota se encontra fora da área de influência de qualquer ETAR. Existem ETAR (Lagos, Companheira, Albufeira Poente e Vale Faro) em que o volume de água residual disponível é considerável, estando, portanto, disponível para outros usos, nomeadamente na rega de espaços verdes.



















Quadro 4: Volumes de água residual disponíveis em ETAR e necessidades dos campos de golfe
Relativamente à qualidade da água necessária para a reutilização na rega de campos de golfe e espaços verdes as ETAR necessitam de remodelações mais ou menos significativas, sendo geralmente necessário implementar sistemas adicionais de remoção de sólidos e de desinfecção. O esquema de tratamento adicional preconizado consiste numa filtração, precedida de elevação e de uma desinfecção por cloragem, por radiação ultravioleta ou por ozonização. A tecnologia de membranas, nomeadamente por ultrafiltração, não foi equacionada embora seja bastante promissora nesta área.

Na operação de filtração considerou-se a instalação de uma estação elevatória e respectivos grupos elevatórios a montante dos filtros. Optou-se por prever diferentes filtros em função da tecnologia de desinfecção adoptada; no caso da desinfecção por cloragem optou-se pela instalação, a montante, de filtros em pressão de malha metálica e, para a desinfecção por radiação ultravioleta, filtros de areia. Para caudais inferiores a 150 m3/h, previu-se a instalação de filtros de areia em pressão e de filtros abertos para caudais superiores. No caso da ozonização, não foi prevista qualquer tipo de filtração a montante, admitindo assim que a matéria em suspensão no efluente não ultrapassa o valor de 35 mg/l SST. Nos cenários de desinfecção por cloragem previu-se a utilização de hipoclorito de Sódio, injectado directamente na tubagem, para caudais inferiores a 200 m3/h. Para caudais superiores optou-se pela utilização de cloro na forma gasosa, a partir de tambores de 1 tonelada, prevendo-se a instalação de um reservatório de retenção dimensionado para um tempo de contacto mínimo de 30 minutos.

No que se refere à qualidade estipulada para a água residual a reutilizar, utilizou-se como referência o Anexo XVI do D.L nº 236/98, de 1 de Agosto. Adoptou-se no caso concreto do parâmetro coliformes fecais o VMA de 100 NMP/100 ml, constituindo este o objectivo de qualidade fixado. Os campos de golfe que apresentem critérios de qualidade mais restritivos, por exemplo a nível dos nutrientes, serão responsáveis pelas etapas complementares de afinação do efluente tratado, que poderão ser implementadas, ou não, na própria ETAR.

A irrigação de campos de golfe é geralmente efectuada durante a noite num período de 6 a 8 horas, com taxas de aplicação irregulares. De modo a reduzir o impacto desta operação no tratamento de afinação da ETAR, deve ser preconizada, sempre que possível, uma bacia de equalização, permitindo assim o funcionamento durante 24 horas desta(s) etapa(s) de tratamento e, consequentemente, unidades de tratamento mais pequenas. O armazenamento da água residual depurada, a efectuar predominantemente sob responsabilidade dos campos de golfe, deve ser bem avaliada, tendo em vista evitar o aparecimento de algas e odores. As baixas concentrações de compostos de azoto e de fósforo na água residual, o que exige, portanto, um nível de tratamento superior, são normalmente justificáveis pela necessidade de minimizar o desenvolvimento de algas e, consequentemente, do aparecimento da eutrofização, embora do ponto de vista de fertilização dos solos tal tratamento não se afigure necessário.

Procedeu-se ainda a uma avaliação técnico-económica preliminar em que foram quantificados os custos mais relevantes no que se refere ao investimento no tratamento de afinação do efluente e gastos de exploração e no investimento no sistema de distribuição, rede primária e secundária, estações elevatórias e gastos de exploração. As componentes de transporte e elevação representam custos superiores a 77% do custo total de investimento. A componente de transporte é a mais onerosa, correspondendo a um valor superior a 50% do investimento inicial.

Em termos de qualidade da água residual tratada a desinfecção por ozono é aquela que, à partida, dá mais garantias de tratamento, tanto em termos microbiológicos como a nível de matéria oxidável residual e da própria cor e cheiro. Em termos de custos, a ozonização apresenta valores cerca de 2 e 2,7 vezes superiores à radiação ultravioleta e à cloragem, respectivamente. O tratamento de desinfecção por radiação ultravioleta parece assim ser muito competitivo a nível económico, apresentando a vantagem adicional de não originar compostos organo-clorados, que são passíveis de formação pela cloragem.

O tipo de rega a utilizar nos campos de golfe, com água residual depurada, também merece uma atenção especial, em particular devido ás consequências que uma prática incorrecta neste domínio pode ter ao nível da saúde pública. No entanto, com o nível de desinfecção previsto, a concentração de organismos patogénicos será de tal modo baixa, que não é de prever a contaminação da relva. A minimização dos impactes ambientais e de saúde pública deverá ser levada em linha de conta ao nível das características da área a regar, para o que se deverá atender ás características físicas e químicas do solo, à topografia e vulnerabilidade hidrogeológica, ao nível da realização das regas, afastamento das zonas habitacionais e origens de água, protecção das zonas envolventes, sinalização e condutas e órgãos de comando e controlo. A gestão da rega deverá merecer uma especial atenção ao nível das implicações agronómicas, tipo de espécies e variáveis cultivadas, rega, fertilização e actividades de manutenção do campo e controlo e monitorização.

4. Conclusões

Ao longo deste artigo descreveu-se a metodologia e os resultados mais relevantes obtidos no Estudo, que pretendeu avaliar as potencialidades de reutilização de águas residuais na região do Algarve nomeadamente a nível da oferta de águas residuais, procura pelos campos de golfe e cruzamento entre a oferta e a procura. Os resultados do Estudo foram promissores, apresentando-se seguidamente as principais conclusões:

· A generalidade das ETAR seleccionadas neste estudo disponibilizam caudal suficiente para fazer face às necessidades de rega quer dos campos de golfe existentes (31 campos; 28,5 campos equivalentes de 18 buracos; 513 buracos; 8,7 hm3/ano) quer também dos previstos (mais 19 campos; aproximadamente 19 campos equivalentes; 341 buracos; 5,7 hm3/ano).
· Nas ETAR de maiores dimensões existe ainda água residual disponível para outros usos, nomeadamente na rega de espaços verdes.
· Relativamente à qualidade da água necessária para a reutilização utilizou-se como referência o Anexo XVI do D.L nº 236/98, de 1 de Agosto, adoptando-se no caso concreto do parâmetro coliformes fecais o valor limite de 100 NMP/100 ml. Os campos de golfe que apresentem critérios de qualidade mais restritivos, por exemplo a nível dos nutrientes, serão responsáveis pelas etapas complementares de afinação do efluente tratado, que poderão, eventualmente, ser implementadas na própria ETAR.
· As águas residuais possuem na sua generalidade níveis de salinidade adequados para poderem ser utilizadas na rega da relva de campos de golfe, sendo a sua qualidade em termos salinos significativamente superior à da água subterrânea que é utilizada actualmente para rega de alguns campos de golfe.
· Para produzir água residual depurada com qualidade suficiente para rega as ETAR necessitam na generalidade de implementar sistemas adicionais de remoção de sólidos (filtração) e de desinfecção.
· O armazenamento da água residual depurada, a efectuar predominantemente sob responsabilidade dos campos de golfe, deve ser bem avaliada, tendo em vista evitar o aparecimento de algas e odores.
· De modo a reduzir o impacto da operação de irrigação, geralmente efectuada com taxas de aplicação irregulares durante a noite num período de 6 a 8 horas, no tratamento de afinação da ETAR, deve ser preconizada uma bacia de equalização, de modo a permitir o funcionamento durante 24 horas desta(s) etapa(s) de tratamento e, consequentemente, unidades de tratamento mais pequenas.
· Da avaliação técnico-económica preliminar constata-se que as componentes de transporte e elevação representam custos superiores a 77% do custo total de investimento. A componente de transporte é a mais onerosa, correspondendo a um valor superior a 50% do investimento inicial.
· A nível da desinfecção o sistema de desinfecção por radiação ultravioleta é o que apresenta custos mais baixos, apresentando ainda a vantagem adicional de não originar compostos organo-halogenados que são passíveis de formação pela cloragem e ozonização. No entanto, a desinfecção por ozono é aquela que, à partida, dá mais garantias de tratamento, tanto em termos microbiológicos como a nível de matéria oxidável residual e da própria cor e cheiro.

Correntemente está-se a proceder à elaboração de projectos para remodelação de algumas ETAR, estando outras em fase de construção. Serão elaborados projectos detalhados dos sistemas interceptores e de elevação de águas residuais tratadas até aos pontos de entrega acordados com os campos de golfe. Com base nestes projectos será efectuada uma análise económico-financeira que permitirá avaliar com muito maior rigor os custos de investimento e de exploração associados. Serão então calculadas as tarifas que asseguram a recuperação/rentabilização do respectivo investimento.

Concluindo, através da reutilização a AdA poderá dar uma contribuição adicional a nível da gestão do ciclo urbano da água, e, consequentemente, na sustentabilidade da utilização dos recursos hídricos da região, encaixando-se perfeitamente esta actividade nas áreas de actuação da AdA.

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