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E agora, Meia Praia? (carta aberta em forma de crónica)


«…look to what they have done to my song…» (duma conhecida cançoneta norte-americana)
Em dois assaltos-relâmpago, tipo «blitzkrieg», consumou-se a tomada de posse da Meia Praia por quem nela manda. O armamento foi o Plano para a Meia Praia, dito PUMP.A primeira investida, com material pesado, meteu luzida comitiva governamental, com a originalidade de serem exibidos 10 empreendedores, 10, provindos dos mais afamados centros de produção. Um por um, foram chamados (ia dizer, pelo inteligente…) para exibir a satisfação por tudo ir acontecer como eles tinham mandado. Mas não se esqueceram de esclarecer que o Código do Trabalho terá que seguir o exemplo dos direitos e deveres do velho Estatuto do Trabalho. Dos autarcas, um Presidente de Câmara, um, esse foi o que se esperava, blá, blá, o plano, blá, blá, o progresso, blá, blá, os postos de trabalho, blá, blá, cá estamos para o que for preciso. E então veio a jóia da coroa, dita por quem sabe, pode e estava ali para isso. Está garantido, disse, apareçam os planos, leis, regulamentos, Diários da República, estratégias ou vontades locais ou regionais, que aparecerem, que ninguém se preocupe, o que se faz é aquilo que a gente quiser. Era «A Bem da Nação». Agora, é «Interesse Nacional». Brilhante. Palmas e podem ir todos descansados, isto é nosso, ou melhor, vosso.Pois, em nome da democracia.A acção que se seguiu foi com o mesmo armamento, mas agora envolvida em capa oportunista de doçura, sem que se tivesse percebido o que é que aquilo tinha que ver com as calças. Mas oportunismo é oportunismo, e lá tem as suas regras. O mesmo Presidente repetiu que o PUMP ia ser óptimo. Mas, outra vez, esqueceu-se de dizer para quem. E foi então e ali que quem explicou, bem explicadinho, o que ia acontecer na Meia Praia, e como, foi o patrão da Palmares, dona de vastos terrenos e pagadora do tal PUMP. Quem paga é dono, lá diz a sacrossanta lei da propriedade. E o dono é que sabe, sem discussão. Aqui há uns anos, um outro iluminado, que era Presidente de Câmara, disse que iria repetir, na Praia da Rocha, a Torremolinos da Andaluzia. Este agora, que não é presidente, mas para o efeito faz de conta, veio dizer que a Quinta do Lago, em Almancil, é que era o paradigma. A Meia Praia vai ser o que ele quer, outra Quinta do Lago. Que bom. Tudo qualidade, que é o que mais abunda por lá. Claro, é a qualidade produtora da exclusão social, a dos condomínios fechados e dos equivalentes “resorts”, tudo devidamente policiado pela matilha amestrada, de variados números de patas, que dela cuida. E servidos pela corte de seres oriundos da classe dos vermes, a quem foi previamente retirada a coluna vertebral, estrategicamente colocados na sua posição preferida, aliás a única autorizada, de cócoras. Como sempre, atentos, veneradores e obrigados. Outros, os cidadãos que tinham querido ver expandir-se Lagos, a Cidade, a Civitas humanista, fervilhante de vida, plural e polinucleada, sede por excelência da massa crítica pública, na busca do bem colectivo, esses retiraram-se para a velha e inexpugnável trincheira do pensamento livre. Quereriam ter tido a Cidade rodeando a sua génese, o seu porto, e envolvendo a sua razão de ser, a sua baía. Quereriam a Cidade marginada, dum lado, pela sua Costa d’Oiro, do outro, pela sua Meia Praia. Bem no centro, o porto, gerador da identidade e factor da sustentabilidade, completado, equipado, respondendo a todas as inter-acções com a comunidade. Tudo sem privilégios, nem exclusividades. Tudo, simplesmente, da Cidade, das suas gentes e seus visitantes, vivendo essas riquezas inimitáveis, mais valias que quereriam não negociáveis, a qualidade natural e o encanto próprio, estimadas heranças recebidas.A propósito, lembro o homem que um dia disse «I have a dream…», e por isso levou um tiro. Por cá, mata-se com brandos costumes.Pois, democracia.E, na Meia Praia, a mulher de César, que espreitava lá atrás, em bicos de pés, para se mostrar, não quis saber e foi-se embora. Não encontrava lugar para mostrar a honestidade.