
Lisboa está vazia, de manhã cedo quando vou para o atelier atravesso ruas desertas, como se vivesse numa cidade fantasma. Mas a sensação não é de todo desagradável. Não tanto nas ruas que gosto mais cheias de gente, mas no trabalho. Agosto é para mim um dos meses mais proveitosos, porque, liberto de telefonemas e urgências, tenho quase todo o tempo para me dedicar a novos projectos.
Lisboa está vazia, de manhã cedo quando vou para o atelier atravesso ruas desertas, como se vivesse numa cidade fantasma. Mas a sensação não é de todo desagradável. Não tanto nas ruas que gosto mais cheias de gente, mas no trabalho. Agosto é para mim um dos meses mais proveitosos, porque, liberto de telefonemas e urgências, tenho quase todo o tempo para me dedicar a novos projectos. É também por esta altura que aproveito para tratar de coisas que durante o resto do ano encaro como arriscadas aventuras. Por exemplo, no espaço de uma semana fui a dois centros comerciais, desses que poderia descrever por manhosos segundo a classificação corrente. Há-os em quantidade pela cidade. Não são só feios e mal concebidos, ocupam espaços claramente inapropriados, têm metade das lojas fechadas com folhas de papel sebentas e as restantes ocupam-se de comércios de outro tempo. Um deles, perto do Instituto Superior Técnico, é basicamente uma cave, sem luz natural, pé direito muito baixo e ambiente de cripta onde falta o ar e a alegria. Para além de uma loja de electrónica, motivo da minha deslocação acidental, esse lugar soturno conta ainda com um pequeno restaurante que a americanização dos anos 60/70 veio a chamar de snack-bares. As pessoas comem no corredor sob a luz de epilépticas lâmpadas de néon, com o conforto possível das catacumbas. A clientela é variada mas, pelo que me foi dado ver em prévia incursão, abundam os estudantes do Técnico. Ou seja, muitos dos engenheiros que vão construir o futuro deste país. Arrepia.Aliás, este gosto pelos buracos é bem lisboeta e talvez mesmo intrinsecamente português. Há quem diga que temos luz a mais e por isso se venera tanto a obscuridade. Mas nada justifica esta proliferação de caves lúgubres, e tantas vezes imundas, que por essa cidade fora abrigam comércios, cafés, restaurantes e muitas empresas onde nunca entra o sol e ainda menos a felicidade. Não sei se isso tem alguma coisa a ver com o fado e a saudade, modo privado de melancolia nacional, mas que é muito triste é.Mas não é só a luminosidade que falta. Lisboa tem muitos dos defeitos das velhas cidades e poucos dos seus atractivos. É uma cidade decadente, suja, com baixa qualidade de vida, fraca mobilidade, pouca diversidade. Das grandes às pequenas coisas são muitas as carências. E as pequenas coisas são muitas das vezes aquelas que fazem a diferença entre o bem e o mal--estar. Cito uma. Já se sabe que os portugueses detestam árvores e que só as concebem como algo para cortar. Mas não deixa de ser menos obnóxio este evidente desprezo pela fruta e em particular pelos sumos naturais. São raros os cafés que os fornecem e os que o fazem só conhecem as laranjas. Por cá ainda não se descobriu que se pode espremer praticamente qualquer fruto ou legume e com eles fazer múltiplas combinações. Sempre com um resultado muito agradável. Fenómeno de penúria que se repete nos restaurantes onde as saladas são invariavelmente de alface e tomate demasiado verde e o acompanhamento de tristes brócolos cozidos demais. Ou falta a matéria-prima ou falta a imaginação. Ou simplesmente é este deixa andar da preguiça e dos maus hábitos.Mas se os lisboetas abandonam a sua cidade há quem a invada. Devido à estatística Agosto é seguramente o mês em que Lisboa parece mais cosmopolita. A cada esquina, e em particular nos bairros ditos populares, cruzamo-nos com línguas diversas, umas conhecidas outras estranhas. Dá gosto. À noite os restaurantes enchem-se de gente que troca os nomes de todos os peixes. A maioria destes turistas vem certamente à procura da antiguidade que já lhes falta ou que conhecem por demais, mas também dessa degradação que tanto me arrelia. As cidades velhas e sujas são sempre fascinantes para alguém. E hoje uma boa parte do turismo faz-se dessa transformação dos centros históricos, dos bairros decadentes e da miséria, em verdadeiros parques temáticas para os que habitam países mais modernos e civilizados. O sucesso de Lisboa nos circuitos internacionais deve-se em parte a essa procura. Peço desculpa, mas não me agrada uma tal distinção.